Solo Show at Galeria Plato
Porto, PT
7 Jun — 1 Aug 2025
PASCAL QUIGNARD, As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitea
Plínio o Velho preferia os tons térreos, mediterrâneos, aos azuis exuberantes do Oriente. Nas paredes de Lascaux permaneciam lá, escondidas, as figuras animais castanho-avermelhadas sanguíneas a exibir para ninguém a paleta de óxidos e terras locais. O faro do Robot de Marcel devolveu-as ao nosso olhar, atravessados oceanos de tempo.
O azul acinzentado que é fundo e alagamento em “Chuva de pão” faria talvez as delícias de Plínio, porque a cor é modulada em névoa, a vibração ensurdecida, e a névoa, por sua vez, tornada lumínica. Carcaça, baguette, folar, introduzem-nos os ocres aclarados, ora em queda, ora em levitação. Lembram as metáforas bíblicas do pão que é espírito e vice-versa ou as rosas farináceas a cair do regaço da rainha Isabel – mas isso é sobreinterpretar.
O tema aqui é a sensibilidade atmosférica – a superfície clara, vaporosa – e a modelação subtil, fruto de um regime de toca-e-foge, que tão bem aparece nas figuras-pão, rápidas e diáfanas. Tudo é leve na nervosa acalmia.
A pincelada quase tempestiva, dita o modo, em afloração. Refiro-me aos fundos, ora fundentes, ora afundados e sempre vivos. As figuras poisam como insectos de longas patas nesse húmus envolvente. Em “Ponto sem fuga” temos o quadro dividido. À esquerda, a superfície terrosa de uma opacidade cerâmica e, à direita, um vislumbre da ilha de Man. Contraste simultâneo, o vermelho e verde vizinhos, como num exercício cromático de Albers. O acídico quente a contrapor-se à sanguínea fria – frisson do curto-circuito de opostos. “Isto e aquilo” é outra maneira de dizer “Ponto sem fuga” – há um esbranquiçado leitoso a cobrir, quase por inteiro, o quadro, revelando uns trilhos desorientados, abertos na neve. Tentativa e erro, cobertura, esquecimento ou simples sono. Começar de novo, aceitando que a tabula nunca é rasa, mas antes lodosa. Tudo é balanço, problemáticas de equilíbrio – como deslizar e definir em simultâneo? Confiemos nas precipitações suaves em tempo longo. Sugestões de rostos-máscaras pontuam algumas das pinturas aqui presentes. É o caso de “Balancé” onde duas máscaras assentam nas extremidades da diagonal e no canto inferior direito se verticaliza uma oval escura indicando um possível avesso, zona gravítica, buraco, contrapondo-se à luminosa fronte do canto superior esquerdo. Duas faces de uma lua comprimida, poderíamos pensar. O tema oval reaparece em maior escala, formando a figura central de uma das pinturas, uma espécie de espelho-frasco-barriga, abrindo-nos um amarelo luminoso, que se vai enferrujando, interrompido por dois laços. É o não-retrato de uma presença, perfume pictórico.
Francisca Carvalho