PINTOR CONVIDA PINTOR

Carolina Vieira, Jorge Queiroz, José Almeida Pereira, Juliana Campos, Louisa Pieper,
Manuel Vieira, Paulo Lisboa, Pedro Liñares, Pedro Tudela, Pedro Vaz, Rita Paisana,
Rui Sanches, Sérgio Fernandes e Simão Carneiro


Group Exhibition, Kubik Gallery, Lisboa, 2025

Em Pintor Convida Pintor, sete artistas abrem as portas do seu próprio território visual para acolher
outros sete, criando um espaço onde a pintura se torna um gesto partilhado. Cada convite é também
um reconhecimento: uma afinidade estética, uma inquietação comum ou uma divergência produtiva
que amplia o alcance de ambos. Assim, a exposição constrói-se como um dispositivo de diálogo, onde
diferentes gerações, práticas e sensibilidades se cruzam sem hierarquias pré-definidas.

A pintura revela-se aqui como um campo vivo e plural, onde o tempo se sobrepõe e as vozes se entrelaçam.
Este entrelaçamento é visível tanto nas aproximações diretas entre os pares como nas relações transversais
que se estabelecem entre obras distantes. Há, sobretudo, uma vontade de escuta: escuta da cor, do gesto,
da matéria e dos silêncios que residem entre as formas. Entre afinidades e contrastes, entre gestos que se
aproximam e linguagens que se expandem, Pintor Convida Pintor apresenta um recorte sensível da pintura
contemporânea.

Mais do que uma simples reunião de obras, a exposição propõe um território de trânsito,
onde o passado e o presente se tocam, e onde cada encontro abre a possibilidade de novas leituras, novas
relações e novas formas de ver. Nesta exposição coletiva serão apresentadas obras de artistas que integraram
a programação da galeria e também artistas convidados, como Carolina Vieira, Jorge Queiroz, José Almeida Pereira,
Juliana Campos, Louisa Pieper, Manuel Vieira, Paulo Lisboa, Pedro Liñares, Pedro Tudela, Pedro Vaz, Rita Paisana,
Rui Sanches, Sérgio Fernandes e Simão Carneiro.

 


CANTO DA TEIA
ANDAR DE BAIXO, LISBOA, 2025

Quem entra no espaço de Canto da Teia não observa: é capturado. A soleira não é apenas física, é sensorial -
uma passagem silenciosa que se abre na fronteira subtil entre o desenho como traço e o desenho como
destino. É uma linha que não representa, mas sugere; que não descreve, mas invoca. Como uma frase sem
pontuação, que continua a desenrolar-se para além da página.

Como escreveu Clarice Lispector, “não se pode falar do que se sente, fala-se das margens do que se sente”,
e é precisamente dessas margens que se fala neste espaço, habitado por transparências e sombras leves.
Cada gesto é um porto provisório, cada forma uma passagem instável. Nada é decoração, nada é
ornamento: cada elemento parece flutuar num estado de gravidade alterada, como coreografia cega,
absolutamente necessária. Os materiais, frágeis, dúcteis, porosos, transportam a memória do toque, do
tempo, da espera. Não se trata de construir, mas de guardar: vestígios, respirações, intenções invisíveis.
Uma tensão mínima, como a de uma teia de aranha sob a luz oblíqua.

E, no fundo, tudo se sustenta neste paradoxo: uma teia que aprisiona e ao mesmo tempo liberta. Que
envolve, mas não restringe. Que não produz imagens, mas experiências de proximidade e distância.
É um canto, sim, mas mudo, afónico, como aquele que se ouve nas salas internas do próprio corpo.
Um coro sussurrado, que impõe respeito mesmo sem dirigir a palavra.
Neste sentido, Canto da Teia é um acto poético desenhado a várias mãos, onde o desenho deixa de ser
instrumento para se tornar condição. Uma necessidade que antecede a forma, e que talvez - como dizia
Henri Michaux - “não procura dizer, mas ser”. O espaço do andar de baixo já não é um contentor, mas um
diafragma: um lugar de passagem entre o que se vê e o que se faz. Aí, onde a linha se faz corpo e o corpo se
faz espera. E é nesse momento que a obra acontece.

Hugo Bernardo, Roger Paulino e Simão Mota Carneiro apresentam um corpo de trabalho como desenho
expandido que perdeu o centro para se tornar sistema, organismo, ressonância. Nenhum dos três se impõe
ou retrai: deriva de um equilíbrio em tensão, como partitura executada a seis mãos num só fôlego. A
matéria aqui não é dada, é procurada; o traço não é imposto, é escutado. A linha é princípio e abismo. Entra
em dicotomia, é fio de Ariadne, mas também labirinto: guia e perda.

Hugo Bernardo trabalha na fronteira entre o gesto e o tecido. No bordado a linha abandona o papel e ganha
espessura: torna-se corpo, sutura, respiração. O seu cortinado é pele permeável, membrana onde a luz
hesita antes de passar. Cada ponto é um acto de escuta - uma escrita paciente que não pretende fechar-se
mas revelar-se na delicadeza do fio. Em suspensão, no lugar onde o silêncio dessa espera se cose,
lentamente, flutuante, eclodem figuras como mar ou vida.

Simão Mota Carneiro encontra deriva na gravura. Linhas que são mapas, rastos de pensamento que se
grava e apaga. Na pulsação desse instante, na memória do erro: cada traço enquanto tentativa de
permanência efémera. Linhas curvas animadas de humor subtil e vibração em tensão. Um jogo de espera ou
desafio que se transforma numa experiência gestual que ao torcer, mistura ou aparenta escapar da imagem.


Roger Paulino trabalha a matriz como território de fricção. O linóleo torna-se superfície de resistência e
revelação: o corte é ferida e caminho. A impressão não se repete – transforma-se. Há no seu gesto algo de
arqueológico, como quem procura a forma escondida sob a pele da matéria. As suas matrizes são corpos em
repouso, mas carregados de energia latente, prontas a reverberar no toque da tinta. Cada impressão é uma
vibração que ecoa, discreta, no espaço partilhado da teia.


Federica Elena (Curadora)

Canto de Baixo
Não há mapa / Só o passo / O chão cede um pouco, / Mas aguenta o rombo / Uma linha / tensa como desejo, / fina como espera, /
forte como o fio de Ariadne / sob o peso da manhã / Não há voz / Mas há um murmúrio antigo, / que vem das paredes, / um eco,
quase lembrança / O corpo escuta / O espaço responde, / num idioma de luz partida / Tudo é quase / Quase linha, / quase forma, /
quase gesto, quase som / Quem entra, sente / E segue / Sem saber por onde, / mas sabendo que é por ali

 


CHUVA DE PÃO
PLATO, PORTO, 2025

“Tenho dois gatos malhados, de coleira amarela, e perdizes às riscas azuis, do azul dos esmaltes
do Egipto”PASCAL QUIGNARD, As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitea

Plínio o Velho preferia os tons térreos, mediterrâneos, aos azuis exuberantes do Oriente. Nas
paredes de Lascaux permaneciam lá, escondidas, as figuras animais castanho avermelhadas
sanguíneas a exibir para ninguém a paleta de óxidos e terras locais. O faro do Robot de Marcel
devolveu-as ao nosso olhar, atravessados oceanos de tempo.
O azul acinzentado que é fundo e alagamento em “Chuva de pão” faria talvez as delícias de Plínio,
porque a cor é modulada em névoa, a vibração ensurdecida, e a névoa, por sua vez, tornada
lumínica. Carcaça, baguette, folar, introduzem-nos os ocres aclarados, ora em queda, ora em
levitação. Lembram as metáforas bíblicas do pão que é espírito e vice-versa ou as rosas farináceas
a cair do regaço da raínha Isabel – mas isso é sobreinterpretar.

O tema aqui é a sensibilidade atmosférica – a superfície clara, vaporosa – e a modelação subtil, fruto
de um regime de toca-e-foge, que tão bem aparece nas figuras-pão, rápidas e diáfanas.
Tudo é leve na nervosa acalmia.

A pincelada quase tempestiva, dita o modo, em afloração. Refiro-me aos fundos, ora fundentes, ora
afundados, e sempre vivos. As figuras poisam como insectos de longas patas nesse húmus
envolvente. Em “Ponto sem fuga” temos o quadro dividido. À esquerda, a superfície terrosa de
uma opacidade cerâmica e, à direita, um vislumbre da ilha de Man. Contraste simultâneo, o
vermelho e verde vizinhos, como num exercício cromático de Albers. O acídico quente a
contrapor-se à sanguínea fria – frisson do curto-circuito de opostos. “Isto e aquilo” é outra maneira
de dizer “Ponto sem fuga” – há um esbranquiçado leitoso a cobrir, quase por inteiro, o quadro,
revelando uns trilhos desorientados, abertos na neve. Tentativa e erro, cobertura, esquecimento ou
simples sono. Começar de novo, aceitando que a tabula nunca é rasa, mas antes lodosa. Tudo é
balanço, problemáticas de equilíbrio – como deslizar e definir em simultâneo? Confiemos nas
precipitações suaves em tempo longo. Sugestões de rostos-máscaras pontuam algumas das pinturas
aqui presentes. É o caso de “Balancé” onde duas máscaras assentam nas extremidades da diagonal
e no canto inferior direito se verticaliza uma oval escura indicando um possível avesso, zona gravítica,
buraco, contrapondo-se à luminosa fronte do canto superior esquerdo. Duas faces de
uma lua comprimida, poderíamos pensar. O tema oval reaparece em maior escala, formando a
figura central de uma das pinturas, uma espécie de espelho-frasco-barriga, abrindo-nos um amarelo
luminoso, que se vai enferrujando, interrompido por dois laços. É o não-retrato de uma presença,
perfume pictórico.

Francisca Carvalho 
 
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Simão Mota Carneiro
Custo